domingo, 12 de novembro de 2017

As memórias que preciso hoje

Um pensamento e pronto. As lembranças voltam, de forma lenta, a me invadir. Quem diria que eu, alguém que se preocupa tanto com lembranças e detalhes, esqueceria cada memória de seis meses de vida?
Cada vez mais, basta uma lembrança para desencadear uma série de reflexões sobre tudo o que passei. A loja que entrei mas não comi nada, a garrafa de bebida rosa que comprei quando o supermercado estava fechando, o café que tomei no dia que me perdi, o bar bonito com poltronas confortáveis que prometi voltar.
Lembranças leves, uma por uma, trazem de volta a mim a sensação de que foi ocorreu bem, afinal. Essas lembranças, mais do que doces memórias, me fazem me questionar e duvidar do que senti.
Foi ruim? Eu enganei minha cabeça? O que aconteceu? De onde vem o trauma que sinto?
Assim como as demais pessoas, que custam a acreditar em mim, eu venho me questionando. Essa pode ser uma forma de tentar retomar minha vida de forma positiva. Mas no fundo, realmente quero acreditar que as lembranças eram o todo e que eu me enganei. Eu esqueci.
É mais fácil acreditar que tudo não foi verdade do que enfrentar o problema inconsciente que vivi. É mais fácil fingir que a dor não existiu do que encarar e buscar uma resposta que a 2 anos tento encontrar.

Hoje, me basta o aroma de café, a lembrança das ruas lotadas, a memória da roupa que experimentei. Por hoje, é tudo o que preciso.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Querer

A vida ficou desinteressante. Não sei se foi porque ela viu de tudo, ou se havia visto muito pouco. Ela apenas parou. Dois anos parada, enquanto a vida seguia em um lapso. Parou-se as séries, os desejos, os planos. Parou toda e qualquer vontade.
Em todo canto havia vestígios daquilo que ela deixara para trás. Se tentasse, cada pedaço de papel, cada favorito salvo no computador e cada lista de coisas a fazer mostravam que ela já não estava ali.
Até mesmo os livros na prateleira, os quais ela tanto quis ler um dia, continuavam acumulando pó. No fundo, ela ainda queria ler, um dia. Mas não agora.
Fora querer encontrar a família e ficar com o namorado, todo o resto era apenas necessidade. Precisava comer, então comia. Precisava de dinheiro para pagar as contas, então foi trabalhar. Precisava dormir em algum lugar, então continuou a viver naquela casa.
Ao mesmo tempo, sabia que tudo aquilo não era desejo. Era necessidade. Os supostos desejos eram o mínimo para viver. Era o que não podia abandonar, se não, não viveria. Embora já não estivesse vivendo, este deixar de viver ainda não a interessava. O que ela desejava mesmo era sentir de novo uma vontade genuína.
Nestes dois anos, não sei ao certo se ela esbarrou com a morte, mas sei que ela encontrou a dor. Ao conhecê-la, soube o óbvio: não iria aceitá-la. E, embora ela soubesse que não se interessava nas oportunidades que a vida podia oferecê-la, sabia também que morrer não era o seu desejo.
No fundo, este era o sinal de esperança que ela precisava. O não querer morrer era algo. Era um sinal que acendia e apagava, mostrava-se mais forte em determinados dias e ausente em outros. Ela queria querer. Apenas não conseguia.
Até mesmo a dor que a afastou de tudo e motivara todo o vazio estava cada dia mais ausente. Só restava ela, num vazio só preenchido com suas dores de corpo e mente a cada dia mais constantes. Sobrava a fraqueza, e esta desde então ficara ao seu lado. Aliás, quando podia, culpava também a fraqueza por tal situação. Acreditava que se ela passasse, o resto passaria.
O vazio fazia também com que a completude alheia tornasse incômoda. Os outros na rua a desagradavam, os sonhos alheios lhe pareciam supérfluos, o desejo alheio por liberdade lhe parecia a maior bobeira que poderia escutar.
Tudo porque um dia ela provou a dor dos sonhos realizados e o vazio da liberdade.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Dor e saudade

Há dias em que eu acordo com saudade de coisas que me doeu. Parece um pouco masoquista, mas no fundo, acredito que isso diz mais do meu senso de positividade. Eu  não sinto saudade da dor, com certeza. Eu sinto saudade do que aquela coisa, que um dia me causou dor, é como um todo.
Não há apenas dor dentro de mim. E, da mesma forma, aquela coisa não é capaz de causar apenas dor. O que é acontece é que, infelizmente, e por fatores que nunca conseguirei compreender, aquele momento, aquele lugar, aquela Lívia, juntaram-se e acabaram construindo recordações negativas.
Ao me lembrar de forma memorosa daquele lugar, eu não quero relembrar da dor. Mas, inevitavelmente, ela não pemite que eu a escape nos meus devaneios. A dor vem junto. 
Hoje, minha luta é por poder acionar meu cérebro àquelas memórias sem que a dor que eu senti seja a atração principal da minha lembrança. Há mais na vida. Eu vivi mais do que aquilo. Eu sou mais do que todos aqueles acontecimentos. Eu posso superar e estou superando o que vivi.
Alguns dias doem mais do que os outros. Em compensação, em alguns dias, eu sou capaz de pensar naquelas lembranças sem que elas me corroam tanto. 
Esses momentos efêmeros me provam minha força. Eu sei que com perseverança superarei. Mais do que isso, sei que um dia poderei um dia matar minha saudade sem que meu medo me possua mais do que meu desejo de viver minha vida.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Que a gente saiba perdoar

Fico feliz em poder pedir perdão. Por me desculpar pela palavra que usei como escudo ou como arma, pela dor que eu causei. Sou grata por conseguir ver onde errei, e por ter a chance de mudar a tempo.
As vezes, o perdão precisa vir de algo que a gente nem lembra que cometeu. E isso dói. Dói saber que a dor que causamos a alguém foi tão inconsciente para nós. Dói pensar que podemos afetar aos outros sem nem mesmo saber que estamos magoando. Dói não se lembrar.
Mas, superando a dor, também me alegro em ser capaz de perdoar o que me magoou. Perdoar é ato de coragem. Demanda abrir mão do orgulho, da raiva, da dor. A dor, às vezes, ainda não nos deixou, mas perdoar pode ser a chave para libertá-la de si.
Ainda tenho muito a perdoar, muito a pedir perdão. O importante, ao meu ver, é buscar melhorar. Mesmo que lentamente. Eu sei que a cada dia me torno alguém melhor. Eu posso ser melhor. Eu posso fazer bem para as pessoas.
Que a gente saiba perdoar e pedir perdão. Que a gente saiba ver onde errou e que dê o braço a torcer. Que a gente tenha oportunidades de mudar a tempo, antes que seja tarde demais.

terça-feira, 2 de maio de 2017

22.06.2016 Sobre o que a gente encontra depois de algum tempo

A morte de alguém, quando esta não morreu e se manteve presente na minha vida, foi o que mais me mudou. Mudou não porque eu quis, mas porque era necessário. Eu não podia manter em mim, na minha vida, na minha casa ou na minha cama alguém que, por mais que quisesse estar ao meu lado, não poderia estar lá.
Quem era eu sem ele? Como eu poderia viver sem aquela pessoa que fez de mim quem eu sou? Meu corpo sentia a falta do corpo dele e minha noites eram vazias sem alguém que estivesse ao meu lado na cama. Eu o amava, e ele, espero eu, me amava também. Mas amar não bastou para nós evitarmos esse fim.

Minha dor foi substituída pela tentativa de encontrar milhões de preenchimentos. A cada vez que eu trazia algo para o afastar, mais eu o trazia para perto de mim. Talvez se ele estivesse realmente partido, seria mais fácil. Se ele realmente tivesse partido, eu não teria que encarar recorrentemente tudo o que foi. A vergonha que é olhar. A raiva que dá. A tristeza. A saudade. Não é que eu não pudesse viver longe dele, pois eu podia, e passei a viver. O ponto é que a presença dele é uma história de um passado distante. E embora tenha passado, eu nunca soube explicar o porquê. 
Infelizmente, acho que as vezes precisamos de alguns porquês para resolvermos dentro de nós algumas coisas. Não sei quando vou encontrar esses porquês. Mas tenho esperança.


04-06-2015 Sobre o que a gente encontra depois de bastante tempo

Estou louca. Me perdi completamente, com toda a certeza. Fiquei louca porque cansei de viver uma vida mais ou menos. Enjoei de aceitar o que não merecia. Não aguentava mais sem tanta coisa que é essencial. Já tinha me bastado ter um pouquinho só. Superei meus paradigmas, meus
Você deve estar se questionando o que aconteceu para eu me tornar essa louca? Você aconteceu. Foi você e toda a vida que a gente teve. Todo o preconceito que você instaurou dentro de mim. Foi a insatisfação por uma vida aparentemente linda. Doeu mas foi bom pra mim. Dói mas é bom pra mim.
Fiquei louca no primeiro minuto depois de te deixar. Porque só aí, eu finalmente me libertei. Me libertei não de você, mas de mim. Só a partir daí que fui eu mesma. Dei asas a esse meu eu que tem tanta ânsia de liberdade, de conhecer, de experimentar. Esse eu que sabe que tem uma jornada muito longa pela frente.
Eu era uma criança. Eu tinha tanta coisa para aprender. Eu sei que ainda tenho. Mas, a dois anos, a tua opinião foi minha regra. Tua fala foi o que eu concordei. Tua falta de vontade foi a minha aceitação. E eu sempre quis tanto isso. Você me ajudou a vestir uma armaduras contra tudo e todos. E você, se armou contra mim.
Me fez questionar meu corpo, meus desejos, minhas necessidades.

Eu estou fazendo coisas erradas, eu estou me arrependendo de muita coisa, estou fazendo coisas que nós dois ficaríamos perplexos. Eu quero a perplexidade. Não me basta uma vida simples. Teu eu não combina com o meu. Teu limite é bem menor que o meu.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sou eu

Eu tinha listas, cadernos e publicações cheias de citações. Vindas dos livros que eu li, das coisas que vi, das músicas que ouvi e prestei atenção. 
Essa era a grande diferença: antes, eu realmente prestava atenção as coisas. Infelizmente, me perdi em meio aos meus problemas e deixei de lado alguns dos costumes que mantinha. Abandonando eles, abandonei também um pouco de mim. Fiquei para trás. Eu era o passado de mim mesma. 
Quem sou eu agora? A questão que eu me pergunto constantemente é a que menos sou capaz de responder. Tenho receio de dizer que sou alguém vazia, que se perdeu e acabou. Não aceito. 
Eu me reencontrarei. Talvez nos mesmos costumes, é possível que eu os encontre novamente. Caso contrário, pode ser que coisas, manias, gostos e prazeres novos me encontrem, me construindo novamente.
No fundo, eu sou eu, não é? Eu sou aquilo que eu era e apenas estou perdida, ou passei a ser outra pessoa? Acredito que ainda sou quem eu era, mas talvez deixei partes de mim fechadas numa gavetinha provisioriamente.
Mas hoje me sinto preparada para abrir novamente essa gaveta. Estou pronta para revigorar meus dias, meus desejos, meus objetivos. Eu me devo isso. Sou capaz de voltar a ter estímulos para minha vida. Eu posso fazer isso. Eu vou.